sábado, 29 de abril de 2017

Reabertura da Linha do Sabor

Fala-se agora muito no aproveitamento do canal da Linha do Sabor para a construção de uma "ecopista". Em minha opinião, trata-se de um erro monumental em que estão a incorrer os autarcas dos municípios abrangidos. A luta deveria ser desenvolvida no sentido da reabertura da linha ferroviária que, devidamente articulada com a massiva vaga turística que enche as ruas da cidade do Porto e que depois sobe o rio Douro até ao Pocinho, poderia constituir uma verdadeira mais valia para a nossa região e um clique definitivo no arranque do aproveitamento das potencialidades turísticas que temos.
Desconheço os números que estarão envolvidos na "ecopista", mas ouço falar em milhões. Desperdício puro e ilusão de óptica. A nossa zona está cheia de "ecopistas", consubstanciadas nos belos caminhos rurais que temos um pouco por todo o lado.
Mas, falando de números em matéria de reconstrução e melhoramento da ferrovia da Linha do Sabor, permito-me chamar aqui à colação o precioso estudo levado a cabo pelo Dr. Daniel Conde, gestor de empresas que trabalhou no ramo ferroviário e que conhece a questão como poucos. No livro intitulado "A Linha do Vale do Sabor, um caminho-de-ferro raiano do Pocinho a Zamora" (Lema d'Origem, 2016), entre as páginas 235 e 282, o referido autor publica um trabalho onde disseca todas as vertentes (custos, vantagens, etc) desta putativa reabilitação/melhoramento do canal ferroviário. Sem pretender ser exaustivo, aqui ficam só os números finais:
- custo final estimado da totalidade da obra: € 43.296.945,57;
- comparticipação do Estado português: € 6.494.541,84.
Ou seja, o Estado gastaria cerca de seis milhões e meio de euros com a recuperação da Linha férrea...
Resta saber os milhões que irão ser gastos nesta inutilidade da ecopista, e o que é que ela irá trazer para a região...

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Casa da Gaita e do Gaiteiro



Segundo notícia publicada no jornal "Diário de Notícias", já se encontra aprovada a candidatura para a concretização do projecto da "Casa da Gaita e do Gaiteiro". A estrutura cultural ficará albergada nas instalações do antigo Banco Pinto & Sotto Mayor, no Largo Trindade Coelho, na zona histórica da vila de Mogadouro.

O texto da notícia em questão diz que a Casa da Gaita e do Gaiteiro "será composta por um centro de documentação, uma oficina para a construção ou recuperação de gaitas-de-foles, uma escola de aprendizagem do instrumento e uma loja onde será disponibilizado todos tipos de peças relacionadas com a gaita de fole.

O novo equipamento cultural e didáctico será o ponto de partida para a organização de um conjunto de iniciativas culturais, que vão desde residências artísticas até à planificação de festivais temáticos a realizar no Planalto Mirandês
."

A minha filhota a tocar gaita-de-foles sob o olhar atento de Ricardo Santos, um dos maiores expoentes deste instrumento tradicional.

Esta é uma boa notícia para o concelho de Mogadouro, pois estou convencido que esta infraestrutura irá atrair visitantes e curiosos de vários pontos do país e estrangeiro à nossa vila. Parabéns ao executivo municipal e a todos os que, nos bastidores, lutaram para que este projecto se concretizasse. Eles sabem a quem me refiro...

domingo, 23 de abril de 2017

Outro lagar rupestre em Urrós

A dica proveio do meu habitual guia em Urrós: ti Bárrios. Disse-me que ti Zé Maria (gaiteiro) conhecia outro lagar rupestre para além do "Lagarico" de que já aqui falei. Nem de propósito, quando conversava acerca disso com o Victor Lopes, apareceu ti Zé Maria. Combinámos para domingo à tarde e lá fomos. O local, como de resto todos os sítios virados para o Douro, é lindíssimo. Mas, faz lembrar a expressão "onde o Judas perdeu as botas"! De qualquer modo, sem guia conhecedor e sem um bom veículo TT é impossível aceder ao dito lagar.


 O lagar situa-se na zona conhecida por "Bouça" que, segundo ti Zé Maria, foi local de plantio de vinha, podendo, inclusive, encontrar-se vestígios dessa cultura nas redondezas.

No percurso da subida, parámos nas imediações do castro do Picão de Bouça d'Aires para ver esta pedra (a que chamam, em Urrós, "pedra parideira"), sujeita a erosão alveolar (fenómeno geológico vulgarmente designado por "tafoni"), semelhante a muitas que se encontram um pouco por todas as arribas do Douro Internacional.
No final da jornada, houve tempo para beber uma mini fresquinha num dos cafés da aldeia e de dar dois dedos de conversa com o mestre gaiteiro. Depois, rumámos até sua casa, onde a sua simpática e amorosa esposa nos agraciou com umas saborosas fatias de "bolo mulato", confeccionado pela filha, e ele nos falou sobre as suas gaitas-de-fole.
Fica aqui um grande bem-haja ao Victor pela disponibilidade para nos acompanhar com a sua carrinha, sem a qual não teríamos conseguido descer até ao lagar.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Foral de Zamora

Zamora é uma cidade elegante, bonita e, simultaneamente, clássica. Normalmente, os nossos conterrâneos demandam-na para buscar as áreas comerciais. Mas, é muito mais que isso. Tem uma zona histórica digna de visita, onde vale a pena perder-se pelas ruelas estreitas. Além de ser capital de distrito, Zamora encontra-se intrinsecamente ligada à história de Mogadouro.
Torre da catedral.
Numa das minhas recentes incursões em Zamora, entrei na charmosa livraria Semuret (um espaço tradicional, onde mergulhamos literalmente em livros, sem o desencorajador aspecto asséptico das modernas superfícies comerciais que proliferam nas nossas cidades), onde adquiri esta versão do foral local.
E é neste documento que reside a ligação umbilical à história de Mogadouro, que atrás referi. Efectivamente, no Foral atribuído a Mogadouro por D. Afonso III em 1272, diz-se o seguinte: "do et concedo populatoribus de mugadoiro et de suis terminis presentibus et futuris forum de Çamora...", ou seja, "dou e concedo a vós povos de Mogadouro e seus limites presentes e futuros o foro de Zamora..."
Esta fórmula utilizada pelo poder real remete para as normas do Foral de Zamora que teriam que ser respeitadas e obedecidas pela população do concelho de Mogadouro, transformando assim este documento legal num indicador incontornável do nosso passado, que não pode, nem deve, ser ignorado pelos estudiosos.

terça-feira, 4 de abril de 2017

O Alferes maçarico e outras histórias - novo livro de contos no prelo

Está para breve a edição, novamente sob a chancela da editora "Lema d'Origem", de mais uma pequena incursão minha no mundo da ficção. O livro de contos vai chamar-se "O Alferes maçarico e outras histórias". Deixo aqui, à laia de apresentação, dois breves parágrafos do prefácio, da autoria de Alfredo Cameirão:


Clicar nas imagens para ampliar.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Árula dedicada a Júpiter Óptimo Máximo Salvador - Zava

Quando agricultavam um terreno no sítio do Mural, em Zava, os proprietários (professores Merência e Manuel Moreira) descobriram uma árula (de talco) dedicada a Júpiter Óptimo Máximo Salvador (2014). Esta espécie de lápide encontra-se depositada na Sala Museu de Arqueologia de Mogadouro e foi alvo de um estudo levado a cabo pelos arqueólogos Armando Redentor, António Pereira Dinis e Emanuel Campos. O arqueossítio em questão revela a indiscutível presença romana no local.
Segundo os autores referidos, a inscrição consta do seguinte: "I(ovi) O(ptimo) M(aximo) / CONSERVA/TORI ∙ ATILIVS ∙ / SILO ∙ AR(am) ∙ P(osuit)", ou seja, "A Júpiter Óptimo Máximo Salvador. Atílio Silão colocou o altar."
Refira-se ainda em relação a Zava a existência de vestígios de povoação castreja, bem como de explorações (sondagens) mineiras, na encosta da serra, virada para a povoação, de que já aqui falei.
Aqui há tempos, um amigo, natural de Zava, mencionou-me a descoberta daquilo que ele julgou tratar-se de um troço de calçada, que, pela descrição, seria romana, ou medieval. Infelizmente, o achado foi completamente destruído e as pedras aproveitadas para atuir um poço e, se bem me recordo, para completar a construção de um muro.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Brunhoso: apontamentos históricos

E já que Brunhoso anda por aqui na berra, aí vão alguns apontamentos históricos da aldeia. Tenho intenção de fazer brevemente uma visita ao castro e ao Poio, mas vou necessitar de guia.

Vista a partir do "Forno dos Mouros".

A página "Brunhoso.net" tem uma teoria engraçada acerca da origem do topónimo, para a qual fui alertado pelo meu amigo eng.º António Magallhães. Com o devido respeito, a teoria é só isso mesmo: engraçada. Mas, adiante. Nos "Tombos da Ordem de Cristo" (1507), o nome da aldeia surge grafado como "Bruinhoso". No foral manuelino de Mogadouro (1512), aparece-nos "Brinhoso". É esse mesmo documento que nos informa que Brunhoso era "vilar novo", ou seja, uma aldeia pequena.
No recenseamento de 1530, Brunhoso tinha 41 moradores, a que deveriam equivaler cerca de 160 pessoas (utilizando o factor de multiplicação por 4, pois a expressão "moradores" refere-se apenas aos chefes de família).
Em 1758, o padre Joachim informa-nos que habitavam a aldeia significativas 330 almas. Os frutos que ali se colhiam naquela época eram trigo, centeio, serôdio, vinho "mediano", azeite "menos de mediano" e linho. Criava-se gado bovino, ovino, caprino e capões (nos arrabaldes, havia fartura de caça miúda, além de lobos e raposas). O cura informa-nos que as oliveiras da beira do rio rendiam mais, mas davam muito trabalho (que novidade!).
Finalmente, em 1796, moravam em Brunhoso 289 almas (139 homens e 150 mulheres), distribuídas por 85 fogos. Desses, 3 eram eclesiásticos seculares, 1 era barbeiro, 4 exerciam a actividade de alfaiate, 3 eram sapateiros e 4 carpinteiros. Havia apenas 1 ferreiro e 3 pastores.

terça-feira, 28 de março de 2017

Um denário romano em Brunhoso

O território de Brunhoso sofre ocupação humana desde tempos remotos, tal como, aliás, toda esta zona do concelho de Mogadouro. Como já aqui escrevi noutras ocasiões, os vestígios da presença romana são evidentes e, alguns deles, foram postos a nu aquando das sondagens arqueológicas efectuadas na sequência das obras da barragem do Baixo Sabor.
O malogrado historiador Fernando Russell Cortez deixou-nos notícia do achamento de um denário - moeda romana - cunhado na cidade ibérica de "Segóbrices"(uma das poucas com direito a cunhar moeda na Meseta). A moeda terá sido encontrada junto ao sítio onde existiu um castro, de que já não restam, praticamente, vestígios.

Desenho do castro, feito por Cortez.

Russell Cortez ficou hospedado em Mogadouro, na "Pensão do Calejo", que lhe cedeu uma mula, em cima da qual se deslocou até à aldeia.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Ainda Hoffmannsegg em terras de Mogadouro

Na sequência do post anterior, ficam aqui mais algumas notas da viagem do botânico alemão: quando Hoffmannsegg passou por Mogadouro, em 1800, queixou-se da ausência de qualquer estalagem. Este facto, embora estranho, é de relevar.
O seu companheiro de viagem, Johann Link mencionou algumas propriedades outrora pertences à família dos Távoras, e que na data pertenciam ao conde de São Vicente (Miguel Carlos da Cunha da Silveira e Lorena), como a Quinta do Marmoniz e a Quinta de Nogueira.
Igualmente importante foi a visita a umas minas de chumbo, próximas do rio Sabor, que, presumo eu, fossem as do Souto.
Ribeira que desagua no rio Sabor, a montante das minas do Souto (actualmente, esta depressão geográfica encontra-se totalmente coberta pela água).

Acerca da visita a Brunhoso, Nuno Gomes de Oliveira diz que: "chega a Brunhoso (Mogadouro) e após meia hora de marcha desce até ao rio Sabor: “Caminhos difíceis atravessam uma espessa floresta onde cresce a vinha selvagem que trepa ao longo das árvores; os habitantes ignoram que se pode cultivar; os javalis povoam os locais mais cerrados da floresta”. De Brunhoso Hoffmanssegg avista a Serra de Sanábria (Galiza) (e não Senabria como Link por erro escreve), “totalmente coberta de neve a 30 de Abril” (de 1800).

Depois, ainda passou por Bemposta e Ventozelo, tal como escreve o autor citado: "Depois de uma breve referência a Miranda do Douro que “é um local miserável”, Hoffmannsegg foi para Bemposta, seguiu para Freixo de Espada à Cinta, atravessando Ventozelo e a aldeia de Lagoaça “cercada de cerejeiras”."

Duas pequenas notas críticas ao trabalho de Nuno Oliveira:

1. No percurso entre Carviçais e Mogadouro, quando Hoffmannsegg fala da "Navalheira" não se está a referir à serra com o mesmo nome junto a Bornes. Nem tal faria qualquer sentido. Está sim a referir-se à mata da Navalheira que se situa entre Estevais e Meirinhos (Mogadouro).

2. Sanábria pertence a Zamora, província de Castela e Leão e não à Galiza.

domingo, 26 de março de 2017

Johann Centurius Graf von Hoffmannsegg em Brunhoso

Entre 1795 e 1801, o botânico alemão Johann Centurius Graf von Hoffmannsegg, juntamente com o seu colega Johann Link, visitou Portugal, com o intuito de estudar e fazer um levantamento exaustivo acerca da flora do país (que haveriam de plasmar no livro conhecido por "Flore Portugaise").

Pormenor da igreja de Brunhoso.

O original da obra foi destruído durante os bombardeamentos que atingiram Berlim durante a Segunda Grande Guerra (em 1943). A história destas viagens encontra-se relatada num livro de Nuno Gomes de Oliveira (com base na sua tese de doutoramento defendida na Universidade de Coimbra). E é através dele que ficamos a saber que no dia 30 de Abril de 1800, Hoffmannsegg esteve, sozinho, na localidade de Brunhoso, concelho de Mogadouro (sendo que no início desse mês tinha viajado de Mirandela para Mogadouro, tendo passado, entretanto, por Vila Real).

domingo, 5 de março de 2017

Estrada Mourisca

A "Estrada Mourisca", ou "Caminho Mourisco", que já aqui mencionei em textos anteriores, surge descrita no "Archeologo Português", na parte que concerne ao concelho de Mogadouro (e não só, mas é esta que agora me interessa). O itinerário é baseado nos apontamentos do arqueólogo/militar Celestino Beça.

Clicar na imagem para ampliar.

Já falei nesta página acerca do troço que passa em Bruçó. Aqui fica uma foto que tirei na altura que fui visitar esta secção do caminho. A imagem retrata a "Ponte dos Almocreves", que nada mais é do que um pequeno pontão assente em largas pedras de granito. Quem seguir em frente, irá em direcção a Lagoaça.


quinta-feira, 2 de março de 2017

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Entrudo transmontano

Entrudo, ou Carnaval? Ontem à tarde, num café de Mogadouro, alguém falava em Carnaval. O dono virou-se para o cliente e disse: "Mas, qual Carnaval, qual quê? Aqui é "Entrudo"!"
Vejamos, a este propósito, o que nos diz Julio Caro Baroja na sua obra "El Carnaval":
A forma "Entroydo" aparece num documento leonês de 1229. No ocidente das Astúrias utilizam-se as formas "Antroido" e "Entroido". No Bierzo, usa-se "Entroido". Na Crónica de Afonso XI (1340) escreve-se "Antruydo", forma conservada na zona de Santander e em Léon. Em Lubián (Zamora), onde se fala um dialecto galaico-português, subsiste a palavra "Entrudio". Em Portugal, "Entrudo".
Portanto, na sequência das recolhas feitas por este emérito estudioso, podemos facilmente concluir que a forma mais adequada e que realmente subsistiu até à actualidade na nossa zona geográfica, bem como nas províncias espanholas mais próximas do Nordeste, é "Entrudo". E muito embora o "Carnaval" também radique a sua origem nos nossos ancestrais, inclino-me a concordar com o meu amigo Eduardo, do Copa. Falai-me de "Entrudo" e deixai o Carnaval para o povo seminú da televisão.


Gostava mesmo era de ver a malta a "atorrear" outra vez e a recuperar as boas e velhas tradições cá do sítio. Isso é que era serviço...

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Lagar de azeite em Prado Gatão

O dia começou em Palaçoulo, com saboroso reencontro com velhos amigos da Faculdade de Direito de Coimbra, provenientes de pontos tão distantes como Cantanhede e Vila Nova de Cerveira. Graças à hospitalidade dos amigos Amaro e Isabel e aos dotes culinários de meu irmão João, tivemos direito a lauto repasto nas redondezas bucólicas desta próspera e agradável aldeia mirandesa.
Depois do almoço, rumámos à localidade vizinha de Prado Gatão, onde fomos principescamente recebidos pelo Adriano, feliz proprietário de um magnífico lagar de azeite, que está a recuperar criteriosamente e que constitui uma verdadeira jóia arquitectónica e histórica do Planalto. Um grande bem-haja a todos.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Rede de saneamento em Mogadouro


Quando em 1986 fui para Coimbra completar o ensino secundário, logo na primeira aula de Filosofia, o professor (Dr. Cabral Pinto) questionou os alunos acerca da proveniência. Quando mencionei Mogadouro, olhou-me com espanto e disse: "isso fica no distrito de Bragança!" Os colegas viraram-se para mim e miraram-me como se de um ET se tratasse. Depois, no intervalo, cheios de curiosidade, perguntavam-me tudo e mais alguma coisa sobre a minha terra. A pergunta que mais me ofendeu foi se tínhamos rede de saneamento, como se viesse de um fim do mundo atrasadinho. Pois, fiquem a saber que a temos desde 1936 (e alguns arrabaldes dos grandes centros urbanos ainda hoje não a possuem...).

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Cedência de terreno para edifício dos CTT

Em 1940, a Câmara Municipal de Mogadouro foi autorizada pelo governo a ceder o terreno para edificação do edifício dos CTT, sito no Largo Trindade Coelho.

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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

A criação do posto da Guarda Fiscal do Casal do Vaso - Bruçó



Imponente e situado numa das mais belas paisagens nordestinas (que, recorde-se, serviu de pano de fundo às filmagens de parte do filme "Doutor Jivago", de David Lean), pertence actualmente a particulares que o adquiriram ao Estado. Mas, esse factor não impediu a sua constante degradação. Aqui fica um pouco da sua história:

"Portaria n.º 17534

Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro das Finanças, tendo-se ouvido a Direcção-Geral das Alfândegas e o Comando-Geral da Guarda Fiscal, que seja criado um posto fiscal junto da barragem do Salto de Aldeadávila, localizado na margem direita do rio Douro, o qual se denominará «Posto do Casal do Vaso» e ficará fazendo parte da secção do Mogadouro da 5.ª companhia do batalhão n.º 3 da Guarda Fiscal, e que seja alterado, nesta conformidade, o mapa II, sob a rubrica «Alfândega do Porto», anexo à Reforma Aduaneira, publicada pelo Decreto-Lei n.º 31665, de 22 de Novembro de 1941.

Ministério das Finanças, 15 de Janeiro de 1960. - Pelo Ministro das Finanças, José Júlio Pizarro Beleza, Subsecretário de Estado do Orçamento."

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A estátua de Trindade Coelho

Quem visita a vila de Mogadouro dá inevitavelmente de caras com a estátua do emérito escritor Trindade Coelho. Sobre esta figura já muito foi dito e escrito. Mas, sobre a estátua pouco se sabe. Por decreto de 31 de Maio de 1958, a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos foi autorizada pelo governo português a celebrar contrato com o escultor Leopoldo Neves de Almeida para a execução em bronze da estátua de Trindade Coelho. O preço da empreitada foi fixado em 150 contos, pagos em duas prestações anuais.

Local onde haveria de ser implantada a estátua.

Sobre o escultor Leopoldo Neves de Almeida (1898-1975), diga-se, a título de curiosidade que foi co-autor do famoso e icónico Padrão dos Descobrimentos, autor da estátua de Calouste Gulbenkian e da estátua equestre de D. João I, na Praça da Figueira, todos em Lisboa, entre outros trabalhos de relevo.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Sindicato Agrícola do concelho de Mogadouro - 1913

Por alvará de 27 de Junho de 1913 foi formalmente publicitada a criação de um Sindicato Agrícola do concelho de Mogadouro. Através deste instrumento legal, os fundadores visavam a promoção e incremento da agricultura local. O capítulo primeiro dos respectivos estatutos (no art.º 4.º) descreve os fins prosseguidos pelo organismo. Diga-se que a ideia era bastante vanguardista e que ainda hoje tem perfeita premência.
Tal como a construção de um canal de irrigação que permitisse transformar o panorama agrícola do concelho, como já aqui defendi, e que também já foi exposta no séc. XIX por diversos autores.
Parece que boas ideias nunca faltaram por aqui. O problema é mesmo concretizá-las. Mas, em tempos de abundância de dinheiros (pelo menos, a aquilatar pela prodigalidade a que nos últimos 15 anos se tem assistido na construção de edifícios que ninguém sabe muito bem para que servem, ou servirão), seria de esperar que os nossos decisores políticos começassem a pensar em projectos verdadeiramente estruturantes para o concelho...

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Foram fundadores do sindicato os seguintes mogadourenses:

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domingo, 12 de fevereiro de 2017

O fabricante de "bestas" de Figueira - séc. XV

Em 6 de Setembro de 1462, el rei D. Afonso V concedeu o privilégio de "besteiro da câmara" a Pero Gonçalves, morador na aldeia de Figueira, concelho de Mogadouro. Por esse documento, outorgado na localidade de Tentúgal, o referido Pero Gonçalves passou a ter licença de "official de fazer beestas darco", ficando equiparado em matéria de honras, liberdades e franquias aos besteiros da câmara real.


Besta e atirador: imagens recolhidas na internet.


Diga-se, a título de curiosidade, que em 1417 o concelho de Mogadouro tinha 25 "besteiros do conto" (soldados armados com besta). Na mesma data, o extinto concelho de Bemposta tinha 2.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Vilar do Rei - fonte de mergulho e apontamentos históricos



Fonte de mergulho em Vilar do Rei (tapada em 1935).

Tal como prometido, regressei a Vilar do Rei para fotografar esta bonita, antiga e desactivada fonte de mergulho. Já o defendi noutros locais, e mantenho aqui: acho que esta solução de segurança já se encontra ultrapassada e devia ser removida e substituída por grades, que evitavam acidentes, mas, simultaneamente, permitiam desfrutar da beleza das fontes.

Segundo o censo de 1530, Vilar do Rei tinha 38 "moradores" (multiplicando por 4, os habitantes deviam rondar os 160). Em 1758, tinha 176 habitantes contabilizados pelo pároco local (10 eram menores de idade). Em meados do séc. XVIII, as principais colheitas da terra eram centeio, trigo, algum vinho e castanhas. Ainda com algum relevo para a economia local, diga-se que na localidade se criavam bezerros, cordeiros e porcos.
Em 1796, a aldeia tinha 48 fogos e 166 habitantes, dos quais 28 eram lavradores, 10 eram jornaleiros, 2 exerciam a profissão de sapateiro, 1 era alfaiate, 3 eram carpinteiros, 1 era ferreiro e 7 eram pastores.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Estação de Vilar do Rei

Após deslocação profissional a Vilarinho dos Galegos, decidi conhecer a nova ligação rodoviária entre a estação de Mogadouro e a estação de Vilar do Rei. Foi graças à ajuda do amigo Victor Castro, que por acaso se encontrava na gare mogadourense, que consegui dar com o caminho, pois as indicações (placas) são inexistentes. A nova via consiste num melhoramento, ao velho estilo do escocês Mac Adam, sobre o caminho que já existia. Em minha opinião, merecia melhor trato (leia-se: alcatrão), pois é uma via relevante (mais importante do que outras ligações que já foram executadas com alcatrão no nosso concelho).
Vilar do Rei, como o topónimo indica, foi terra reguenga e com pergaminhos históricos e arqueológicos. Além do mais, é a terra do meu avô materno (José Neto) e pretendo dedicar-me a ela em próximas postagens (deixo só aqui uma pequena e castiça história: há cerca de 18 anos atrás, no decurso de um raid TT organizado pela Associação Mogadouro Vivo, eu e o Nuno Aleixo perdemos-nos da restante comitiva. Como desconhecíamos onde estávamos, quando entrámos numa localidade - que era Vilar do Rei, mas nós não sabíamos - perguntámos a uma senhora: "bom dia, a senhora sabe onde estamos?" Resposta pronta: "sei, sim senhor, muito obrigada!" Depois de uma sonora gargalhada, respondi: "eu sei que a senhora sabe. Nós é que não fazemos a menor ideia!").

Aqui ficam alguns registos da defunta estação do caminho de ferro:




domingo, 5 de fevereiro de 2017

Foral de Mogadouro (séc. XIII) - algumas curiosidades

Perspectiva da vila e castelo de Mogadouro (séc. XVI) - desenho de Duarte de Armas.

Como é sobejamente sabido, Mogadouro obteve o seu primeiro foral em 1272, pela mão de el rei D. Afonso III. Foral esse que viria a ser confirmado por documento de 1273.
Este instrumento jurídico remete os mogadourenses para as regras estipuladas no foral de Zamora. Aqui ficam algumas curiosidades:

- Em caso de homicídio, o assassino tinha o dever de beijar os parentes da vítima, e estes deviam deixar-se beijar por aquele!

- O indivíduo que ferisse ou atentasse contra os pais seria automaticamente deserdado.

- Se os filhos não acolhessem em suas casas os pais e/ou os avós, o juiz tinha poder para expulsar de lá os filhos e conceder abrigo aos ascendentes.

- Os juízes e as viúvas não eram obrigados a dar pousada nas suas casas.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Festa da chouriça em Zava

Em 1758 era anexa de Mogadouro a Quinta de Zava. Em 1796 tinha 18 fogos e 52 almas (24 homens e 28 mulheres). Em 1530 tinha seis moradores que, atendendo a diversos factores de cálculo, deveriam corresponder aproximadamente a 24 habitantes.
Quanto ao topónimo, quando iniciei as minhas pesquisas associei-o a origem árabe. Contudo, após mais aturado estudo, cheguei à conclusão que a sua origem é muito anterior. Na "serra" que lhe serve de abrigo, existem vestígios de povoamento e exploração mineira das épocas romana e pré-romana.
Lembro-me da primeira vez que fui a Zava à festa da chouriça (último domingo de Janeiro), deveria eu ter os meus 7 anos. O esforço da caminhada era compensado com o piquenique nas faldas da serra, onde assávamos a chouriça.
Hoje, regressei à aldeia, a convite do meu amigo Casimiro Manuel, que recentemente ali adquiriu uma casa. A festa fez-se em torno de um porco assado no espeto pelos amigos Alberto Tomás e Nelo Regedor. A chuva deu-nos tréguas e o convívio esteve muito bom.

 O Alberto deixou-me experimentar a temperar o bicho.

 Autêntico museu rural na casa do Casimiro Manuel.
 Um dos "ramos" com chouriças que são arrematados na aldeia.
 Equipa de respeito (da esquerda para a direita: Zé Freitas, Casimiro Manuel, eu, Mário Freitas).
 O Afonso a atacar um "sancanho" do reco, sob o olhar (e atitude) crítico do Alberto Tomás.
A "serra de Zava", em cujas encostas se encontram os vestígios arqueológicos.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Santa Casa da Misericórdia de Castro Vicente

No dia em que tomaram posse os corpos sociais da Santa Casa da Misericórdia de Mogadouro, o Bispo de Bragança-Miranda, D. José Cordeiro, no uso da palavra referiu as Misericórdias extintas, mencionando a esse propósito a de Azinhoso. Mas, a de Castro Vicente que se extinguiu, supostamente no séc. XIX, também merece referência.
Fonte de mergulho de Castro Vicente (foto: Antero Neto).

Aqui deixo alguns contributos para a sua história, tendo como fonte um estudo da autoria de José Marques ("Nos primórdios da igreja da Misericórdia de Castro Vicente"):
Foto de José Marques (inserida no estudo em questão).

- A escritura de constituição do património exigido para a igreja poder funcionar foi outorgada em 11 de Janeiro de 1587, sendo tabelião Baltasar Cordeiro e provedor desta Santa Casa, Álvaro de Sá (que era casado com Maria Pinta).

- Facto que leva a crer que a Santa Casa, enquanto instituição, já fosse anterior a essa data.

- Em 1758 tinha 25 irmãos, tendo as eleições periodicidade anual. No acto eleitoral eram eleitos um provedor, um escrivão, um procurador e um mordomo.

- Durou cerca de 270 anos e teve hospital, que se situava próximo da igreja paroquial (num espaço agora ocupado por casas particulares).

- O último provedor de que há registo foi Manuel Inácio Martins, sendo mordomo António Joaquim Escaleira (1855).

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

São Pedro, Meirinhos - Usos e costumes em 1921

A localidade de São Pedro é uma anexa da freguesia de Meirinhos, concelho de Mogadouro. Normalmente designada por "Quinta", devido à sua reduzida dimensão, fica próxima do leito do rio Sabor e as suas encostas são ricas em amêndoa e azeitona. Nos idos das décadas de oitenta/noventa do século passado, meus pais possuíam por lá dois olivais. Por isso, tive oportunidade de conhecer bem (bem demais para o meu gosto) aquelas latitudes.
O insigne estudioso e grande vulto da cultura nacional, Joaquim Rodrigues dos Santos Júnior, levou a cabo durante as férias da Páscoa de 1921, um interessantíssimo estudo acerca da população e dos usos e tradições desta localidade, que deu à estampa em 1924. Só por este trabalho (não obstante os muitos em que se debruçou sobre o concelho de Mogadouro), este homem merecia uma singela placa na toponímia local (mas, de toponímia e comissões da dita cuja estamos conversados. Quando se assiste a nomeações como a que foi feita pela Assembleia Municipal de Mogadouro - com o meu e mais três votos contra - não vale a pena gastar mais latim. Cada um tem o que merece...).
Capa do livro.
Estampa que integra o livro, com imagem do casario da época.

Entre os muitos e variados temas que aborda, achei particularmente piada à questão dos usos aquando do nascimento das crianças:

"Não há parteira de profissão. Qualquer mulher desempenha essas funções.
(...) - Não, meu senhor, a primeira vizinha que aparece é que talha a vide e depois amarram-na com um fio qualquera, quási sempre linha caseira, e a ponta desse fio ata-se a um pé da mãe.
Daí a bocado saem as lívias; se demora tempo a aliviar-se, o homem agarra-a pelas costas, por debaixo dos braços, e dá-lhe duas sacudidelas pequenas, para as lívias saírem.
(...) - E depois de nascer o que fazem?
- Ós rapazes, puxa-se-lhes o nariz para que não fique batato, e às raparigas aperta-se-lhes os biquinhos dos peitos para sair a peçonha que traz lá metida, senão criam-lhe os peitos.
- E em seguida lavam-nas, não é verdade?
- Sim, meu senhor, dá-se-lhes um banho em água quebrada da friura, mas há quem os espete logo numa bacia de água fria."

O relato continua com a descrição dos passos seguintes. Verdadeiramente precioso!